FORTALECENDO OS SABERES TRADICIONAIS DO POVO KAMAYURÁ
Memória, Música, literatura e futuro
Os Kamayurá são um povo indígena de língua Tupi que habita o Alto Xingu, no Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso.
Sua cultura reúne conhecimentos transmitidos oralmente por meio das narrativas, dos rituais, da música, das artes e da convivência entre gerações. Entre os Kamayurá, música, narrativas e rituais fazem parte de um mesmo sistema de conhecimentos que estrutura a vida coletiva, preserva a memória dos antepassados e expressa formas próprias de compreender o mundo.
Nas últimas décadas, especialmente após a pandemia da Covid-19, importantes anciãos faleceram, tornando ainda mais urgente o fortalecimento da transmissão desses conhecimentos às novas gerações.
Hoje, por exemplo, a Jakuí — uma flauta tão central para os rituais e para a cultura Kamayurá — deixou de ser tocada porque alguns dos mais velhos que conheciam suas músicas morreram sem que esse conhecimento tivesse sido transmitido aos mais jovens. Hoje, não há entre os jovens Kamayurá quem tenha esse conhecimento necessário para tocar e realizar esse repertório como antes.
UM PROJETO DE CONTINUIDADE
Este projeto nasce de uma demanda trazida pelos líderes do Povo Kamayurá, e propõe uma ação integrada de fortalecimento da tradição Kamayurá por meio da transmissão de saberes musicais, da revisão e publicação de obras fundamentais de sua literatura e da documentação audiovisual colaborativa, com valorização dos mestres, das mestras e dos detentores desses conhecimentos.
Para o povo Kamayurá, a música não é apenas uma expressão artística. Ela faz parte da estrutura dos rituais e do calendário cultural e cosmológico. A Jakuí é uma flauta fundamental para os Kamayurá e está relacionada às histórias de origem e à cosmologia do povo. É tocada pelos homens. Enquanto os homens tocam, as mulheres respondem cantando. No Yamurikumã, as mulheres ocupam o centro do ritual: cantam, falam, dançam e assumem um lugar de presença e força.
Não existe vida sem canto. Não existe ritual sem corpo. Não existe a continuidade desses conhecimentos sem que eles sejam praticados.
Por isso, a transmissão precisa acontecer de pessoa para pessoa, de geração para geração, por meio da escuta, da convivência e da prática: não se trata de aprender um som, mas sim uma sabedoria. A autodenominação dos Kamayurá é Apyap — “os que escutam”. Por isso, o projeto prevê o trabalho com os detentores desses conhecimentos: pessoas que conhecem os repertórios da Jakuí e do Yamurikumã e que poderão dedicar tempo para ensinar novamente essas músicas aos homens e às mulheres que desejarem aprender.
Recuperar a música, portanto, não é voltar ao passado. É garantir que o futuro possa continuar sendo também do povo Kamayurá.
DUAS FRENTES DE AÇÃO
PARTE 1: SABERES MUSICAIS
Ao longo de 10 meses, serão realizados 5 módulos de 10 dias para a transmissão dos repertórios da Jakuí e do Yamurikumã.
O projeto prevê:
Formação de: 5 jovens tocadores das flautas Jakuí e 10 mulheres no repertório tradicional do Yamurikumã
Formadores: 2 mestres das flautas Jakuí e 3 mestras dos cantos do Yamurikumã
Também serão produzidos um documentário colaborativo de 20 a 30 minutos e um ensaio fotográfico sobre o processo.
PARTE 2: LITERATURA KAMAYURÁ
O projeto prevê a revisão e republicação de Moroneta Kamayurá – Histórias Kamayurá, narrado por Takumã Kamayurá e Kokar Kamayurá, e a revisão, edição e publicação do livro Kwaryp, que registra as etapas do ritual, desde o falecimento até sua conclusão.
Serão produzidos 1.000 exemplares de cada publicação.
A distribuição prevê 500 exemplares para a comunidade Kamayurá, destinados às escolas indígenas, aos acervos comunitários e à preservação da memória cultural; 200 exemplares para escolas indígenas do Alto Xingu e de outras comunidades; e 300 exemplares para universidades, bibliotecas, museus, centros culturais e instituições de pesquisa.
UMA PARCERIA DE MAIS DE 25 ANOS
O projeto é resultado de uma parceria construída ao longo de mais de 25 anos entre a coordenação do projeto e o povo Kamayurá, marcada por pesquisas, processos de documentação, publicações, ações artísticas e uma longa convivência na aldeia.
Essa trajetória deu origem, entre outros trabalhos, aos livros Moroneta Kamayurá – Histórias Kamayurá e Kwaryp.
O presente projeto representa a continuidade dessa trajetória compartilhada para a preservação desses saberes e será desenvolvido em permanente diálogo com a comunidade.
ACOMPANHAMENTO E TRANSPARÊNCIA
A execução será acompanhada pela equipe da Outra Margem e pela comunidade Kamayurá. Todas as decisões relativas às atividades, cronograma, execução financeira e acompanhamento serão conduzidas em diálogo com a comunidade.
Ao final, será produzido um relatório técnico e financeiro completo e uma página específica no site da Outra Margem, em português e inglês, reunirá as atividades, fotografias, documentário, publicações, informações sobre a execução do projeto, prestação de contas e relatório final.





